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Trabalho de Sombra ou shadow work: abrace sua verdade e destrave sua vida


Eu quero que você pense em tudo aquilo que mais te causa repulsa no mundo.


Animais, pessoas, ideologias, músicas, filmes - eu tenho certeza que você detesta algo ou alguém em cada uma dessas categorias.


Pense na situação ou pessoa que mais te tiraniza na sua vida neste momento. Aquele bloqueio que está entre você e a realização dos seus desejos. Sinta essa sensação por um instante, note como se manifesta no seu corpo.



O que é a sombra?


De acordo com C. G. Jung, idealizador do conceito, a sombra da psique é onde guardamos tudo aquilo que recalcamos. Queremos tanto não olhar para a questão que ela acaba indo para a zona escura - o ponto cego - da nossa psique.


Isto porque se trata de uma parte do inconsciente pessoal que contém aspectos reprimidos e indesejados da personalidade de um indivíduo, podendo se manifestar sob a forma de medos, raiva, inveja, impulsos agressivos e desejos proibidos.


Pode parecer desagradável, mas é, de fato, uma parte fundamental da psique, onde se encontram as explicações sobre o que não aceitamos ou compreendemos acerca de nós mesmos.


sombra jung
Modelo de Jung da psique

Por isso mesmo, conhecer e integrar sua sombra é uma etapa fundamental no processo de individuação e de vivência da Eudaimonia. 


Além disso, a sombra contém muito potencial, pois não só tentamos perder de vista os aspectos desagradáveis de nós mesmos e nossas vidas, mas também os positivos. Muitas vezes, por exemplo, uma qualidade nossa atrai rejeição ou outra reação desagradável, nos levando a afastar da consciência nossa associação a esta virtude.


O processo de integração da sombra permite não só nos conectarmos com nossos potenciais, mas também processar as questões difíceis em nossas vidas.



Como integrar a sombra?


Tudo começa aceitando que você é, também, a sua sombra - o que é desafiador, considerando que a sombra contém tudo aquilo que você não gostaria de ser. Mas, veja: você só rejeita certas coisas exteriores porque elas ressoam com você. E este só poderia ser o caso se existisse em você algo de natureza similar ao objeto de sua repulsa sombria.


Uma maneira de identificar a sombra é aquilo pelo que sentimos culpa - o que pode ocorrer tanto por coisas que fizemos, como por coisas que não fizemos. Por exemplo: você sente culpa ao descansar? Como se você só fosse válido se for produtivo? Você sente culpa ao não trabalhar? Isso pode ser reflexo de uma crença guardada na sombra - de que você só poderá receber amor se for útil, por exemplo.


A sombra também se faz visível naquilo de que nos ressentimos e, ainda, no que invejamos - muitas vezes, dois lados de uma mesma moeda. Por exemplo: uma pessoa que tem dificuldade de ser assertiva pode virar massa de manobra na mão dos outros, o que culmina em ressentimento e inveja de quem é assertivo. Neste caso, o potencial de assertividade fica contido na sombra, possivelmente por medo da rejeição. Mais um dos motivos pelos quais integrar a sombra enriquece nossa psique e nos coloca mais perto de viver a plenitude de nosso potencial.


Além disso, a autossabotagem, um mecanismo oriundo da sombra, ocorre quando você conscientemente deseja algo mas, ao mesmo tempo, resiste a alguns de seus efeitos. Você quer sucesso, sua sombra diz, mas você quer as novas responsabilidades que o sucesso vai te trazer? A inveja que os outros irão projetar em você? Os pedidos de ajuda que fatalmente virão? 


Este é o principal motivo pelo qual eu creio que magistas devem se familiarizar com suas sombras. Porque essa resistência interna é que que torna as conquistas tão penosas, e faz, muitas vezes, a elas se sucederem dificuldades. Sem conseguir aceitar uma vitória, o conteúdo sombrio logo a verte em fel, reforçando o seu ressentimento do sucesso. O mesmo mecanismo se aplicará a todo trabalho mágico que você fizer.


É importante compreender esses mecanismos porque olhar para a sombra é a única maneira de integrá-la. E é uma tarefa muito difícil, pois ela se esconde nos recônditos ignotos dentro de nós. O primeiro passo se dá permitindo-se admitir para si por quais razões você não quer, de fato, o que seu Ego diz querer. 



Inventário do Medo Mais Profundo


Para isso, eu sugiro um exercício chamado “Inventário do Medo Mais Profundo” ou “Deepest Fear Inventory”, concebido pela Drª Carolyn Eliott e exposto em seu livro, Existential Kink


Você vai escrever num papel: “Eu odeio e me ressinto de [insira uma ambição sua] porque eu tenho medo que [escreva ao menos 20 medos, o mais rápido possível].


Depois disso, você vai ler esses medos para uma outra pessoa em voz alta (sim!) e vai destruir o papel, seja rasgando-o, seja queimando-o.


Esse é um exercício que pode ser feito com frequência, porque te dá a chance de se observar melhor, bem como de observar eventuais mudanças interiores - você pode perceber que, com o tempo, seus medos irão mudar.. Além disso, a simples ação de se permitir olhar para essas questões e reconhecer sua existência é uma forma de transmutação.


Outro aspecto interessante deste exercício é que você vai perceber que alguns dos medos que aparecem não condizem com a realidade ou são realmente fáceis de resolver. Questionar seus medos pode te ajudar a rever seus conceitos, abrindo caminho para a integração.



Meditação Ativa + Autoaceitação Radical


Outra coisa que você pode fazer é meditar no objeto do seu desejo e notar todas as reações desconfortáveis que a ideia causa no seu corpo. Analise-as de uma perspectiva sensorial: elas têm cor? Forma? Sabor? Aroma? 


Conforme você se permitir interagir desta maneira lúdica com essa energia, você vai estar abrindo caminho para um daqueles insights que vêm do Self - e é bem provável que a origem do elemento sombrio tome contornos e se revele, permitindo sua integração.


Para, de fato, fazê-lo, uma proposta é a da autoaceitação radical. A ideia é olhar para a sombra - e seus conteúdos - com amor. Afinal, ela não é má - de fato, escondemos tanto tesouro como lodo nas nossas sombras. (Isso acontece quando somos recriminados por sermos bons em algo e acabamos por esconder até nossas virtudes de nós mesmos.)


A sombra é, basicamente, um aglomerado de mecanismos de defesa que acumulamos desde aquela idade tão tenra que nem memória temos dela - mas tem suas raízes, de fato, nos primórdios da humanidade. E é essa compreensão que permite encará-la com amor - da sua forma retorcida e mal-ajambrada, sua sombra só está tentando te proteger.



Astrologia: a sombra na sua carta natal


Uma análise da sua carta natal, com foco na casa 12 e demais casas escuras, pode ser incrivelmente esclarecedora sobre a natureza arquetípica dos temas que você carrega no ponto escuro da sua psique.


As chamadas casas escuras, as que não fazem aspecto com o Ascendente, podem falar da sombra. Em especial a casa 12, que na Astrologia Helenística era chamada de Kakodaimon, ou seja, o Espírito maléfico que sopra no seu ouvido que você é um lixo e não faz nada direito - o contraponto sombrio do Agathosdaimon, ou Bom Espírito.


Esta é uma casa que fala de autossabotagem, isolamento, depressão, compulsões e outras questões de saúde mental, perdas e inimigos ocultos. Um olhar para o signo, planeta regente e eventuais ocupantes desta casa pode te esclarecer muito sobre a natureza da sua sombra.


Sua casa 8 irá falar dos assuntos que são crise na sua vida - tudo aquilo que é pedra no seu sapato. A casa fala, ainda, de morte e recursos alheios, podendo revelar mais sobre como você lida com encerramentos e como você se sente recebendo coisas dos outros.


Já a 6 fala sobre os aspectos servis do seu cotidiano e das suas doenças. Ela dá um testemunho sobre o tipo de coisa que você somatiza. Por exemplo: uma casa 6 com Gêmeos ou Virgem pode indicar questões de saúde decorrentes de nervosismo e pensamentos excessivos. Aqui você vai, ainda, saber mais sobre por quais aspectos da sua vida terrena você se sente escravizado.


Finalmente, a 2 versa sobre os recursos que dão suporte à existência do seu corpo: dinheiro, roupa, comida, pertences pessoais. Aqui podem ser encontradas questões de merecimento, bem como sua maneira de lidar com a sua subsistência. Entender essa casa pode te ajudar muito com a sua magia financeira.


Olhar para todos esses elementos em conjunto, bem como eles interagem entre si, pode oferecer um bom panorama da sua sombra e de seus conteúdos.



Terapia com profissional de Psicologia


Ter um segundo par de olhos formalmente treinados para esquadrinhar os pontos cegos da sua psique pode ser incrivelmente útil, além de acelerar seu processo de reconhecimento da sombra. O terapeuta também te ajuda a fazer isso com segurança, segurando sua mão nos momentos mais desafiadores.


Para escolher um terapeuta, recomendo que comece se familiarizando com as modalidades. Já vi freudianos, junguianos, lacanianos, terapia e análise bioenergética e terapia cognitiva comportamental, apenas para mencionar alguns. Eu, particularmente, acho que junguianos são mais aptos a trabalhar com magistas, pois operam virtualmente dentro dos mesmos parâmetros que nós, e tenho pra mim que Jung era um grande mago. Mas descubra por si e experimente.


Depois disso, avalie o currículo do profissional. Sua alma mater pode, por exemplo, dar pistas sobre o enfoque de sua formação. Observe também os tipos de trabalho que já foram realizados e por quanto tempo.


Afinidade com o profissional pode ajudar com o prosseguimento da sua terapia, um processo inerentemente longo. Uma primeira consulta experimental (às vezes cobrada, às vezes não) pode te ajudar a medir sua química com o terapeuta.


Importante achar um preço que caiba confortavelmente no seu bolso, porque, como eu disse, é um processo contínuo e de longo prazo. Hoje em dia, existem algumas opções de preços sociais, o que você facilmente encontra numa pesquisa pelos algoritmos de busca.


Como tudo na vida, terapia não é bom sempre e nem o tempo todo. Mas é uma aliada incrivelmente útil não só na exploração da sombra, mas também dos demais aspectos do seu ser.



Reconhecer o potencial da sombra


Os temas que colocamos no ponto cego da nossa psique, por mais desconfortáveis que possam ser, são verdadeiras fontes de energia para fazer o que queremos e de conectividade com o mundo ao nosso redor. Ao relegá-los à sombra, nós nos desconectamos de partes fundamentais de nós mesmos, partes estas relevantes para a vivência da eudaimonia - são, afinal, parte.


Até porque, conforme já foi dito, na sombra não se guardam só coisas indesejáveis, mas também aspectos construtivos do nosso ser. Quando eu te falo que você é muito mais do que você pensa, eu também estou falando de potenciais. Procurar suas virtudes no ponto cego de sua psique é especialmente recomendável para aqueles que sonham realizar algo mas têm dificuldade na implementação. Seus sonhos não são à toa e existe algo em você capaz de manifestá-los - é apenas questão de encontrar.


Além disso, estar em contato com a própria sombra tem efeitos externos tangíveis. Como magista, eu penso que resgatar temas da sombra é como um trabalho de des-manifestação ou banimento, visto que é o caminho reverso de criar uma impressão no inconsciente por meio da vontade consciente. Os caminhos podem começar a se abrir quando antes estavam fechados na sua vida concreta.


Finalmente, ao se perceber a própria sombra, fica mais fácil também ver a do outro, o que pode levar a um olhar mais compassivo com relação às falhas, próprias e alheias. O contato com o próprio aspecto sombrio permite, de fato, uma visão muito mais clara das sombras do coletivo, tornando sua visão da sociedade em que você vive muito mais clara e compreensiva.



A Sombra do Coletivo


Da mesma maneira como existe um inconsciente coletivo, há também uma sombra coletiva - justamente, o ponto cedo do inconsciente coletivo. Normalmente, você encontra nesta categoria tudo aquilo que é demonizado por um grupo ou outro da sociedade, pois contraria seus valores conscientes compartilhados.


Medos, preconceitos, violência e segregação são, também, reações relacionados à sombra coletiva. De fato, a ela Jung associou a maioria dos aspectos negativos da experiência humana em sociedade. Isto porque é ao ver num grupo ou elemento um aspecto rejeitado de si, que outros grupos apelam para atos deploráveis.


Por exemplo: o político que você, e os seus, odeiam. Quais são as características que o tornam tão odioso? Se você tiver honestidade intelectual e olhar com muita atenção, vai perceber que as mesmas características se repetem do “seu” lado, ainda que sob uma outra roupagem. E pensar que você brigou com metade da sua família e vários dos seus amigos por causa disso - digo eu, de uma perspectiva de primeira pessoa!


O principal representante da sombra do coletivo é o próprio Satã. É curioso como ele só existe dentro de um paradigma cosmológico estabelecido, agindo apenas dentro de suas alegadas funções de ministro da punição, mas mesmo assim prega-se que ele deve ser aniquilado e rejeitado de todas as maneiras. Meditar no conceito de Demônio pode ser um exercício interessante para o explorador sombrio.



Via Veneficia


O Caminho do Veneno é outra abordagem para trabalhar a Sombra, afinal, trata-se de uma proposta de abraço a toda Substância tóxica, o que abrange desde plantas venenosas até sentimentos negativos e situações desafiadoras.


Uma das principais características da Via Veneficia é o estudo e o emprego medicinal e enteogênico de plantas, fungos e animais venenosos. Em pequenas doses, a flor assassina proporciona sedação, relaxamento e euforia. Com a administração adequada, o cogumelo psicodélico pode facilitar seu encontro com sua sombra.


Essa é uma Via acelerada e perigosa, que de maneira alguma substitui o trabalho cotidiano e constante. Por outro lado, aliados a uma base firme, estabelecida com prática diligente, Venenos podem catalisar a transmutação da sombra, bem como o conhecimento de si e do Daimon.


Nesta filosofia, é importante lembrar que o que faz o Veneno é a dose - e o uso. Além disso, é fundamental tratar os Venenos com a mais profunda reverência, pois são Substâncias de Poder, cheias de consciência e agência. Trate a consagração Delas como um encontro com um sábio ancião. Humildade e respeito são essenciais.


Se você for experimentar algo, pesquise muito antes, comece com uma dose extremamente pequena e, se possível, peça para alguém cuidar de você durante o experimento. Deixar água, comida, cobertas, travesseiros, balde e papel higiênico (dependendo do que você for tomar) vai te deixar mais confortável e seguro para a jornada.



Via Sinistra


Até agora, discutimos a sombra como uma parte da psique humana. E, assim como existe um inconsciente coletivo, existe uma sombra coletiva, que eu acredito refletir-se em tudo aquilo por nós percebidos como o lado B da realidade: a noite, a escuridão, a morte, a dissolução.


E, da mesma maneira que há quem proponha que a sombra pessoal não é má, há quem proponha que o lado sombra da realidade… também não é mau. Essa filosofia se encontra principalmente nos chamados caminhos espirituais de mão esquerda.


Existem muitas controvérsias sobre a definição ou mesmo a existência de algo chamado caminho de mão esquerda. Com base nos meus estudos, atrevo-me a afirmar que o que o define é justamente a postura de aceitação do lado sombra da realidade como necessário e até fecundo - afinal, escuro é o Ventre do qual toda a existência manifesta foi lançada. 


A beleza dessa perspectiva é que suas sombras pessoais vão te parecer pequenas e inofensivas em comparação com as do Universo. No caminho da mão esquerda, você tem a chance de repousar no silêncio aveludado da imobilidade cálida do espaço profundo - e, assim perto da Não-Existência que deu origem à Existência, descobrir que os demônios de desertos passados… Isso mesmo, também não eram maus.


Outra ideia pervasiva nas linhas de mão esquerda é que a prática espiritual deve ser orientada a si, ao seu Daimon e à autodeificação, em oposição com os caminhos de mão direita, que pregam uma união com o Todo.


Eu não acredito em caminho certo e errado e nem sequer que exista algo como uma batalha do Bem contra o Mal. Acho isso de uma breguice tão espúria quanto abraâmica. Algumas forças no Cosmos são sombrias; outras, luminosas. Todas têm um lugar dentro da realidade, operando dentro de suas afinidades peculiares.


Qualquer que seja o caminho que você escolher, a sombra lá estará. Tal qual o vilão de um conto-de-fadas, ela vai impor dificuldades ao seu caminho e se opor à sua busca pelo Graal. Ainda bem. Como qualquer entusiasta de escrita criativa vai te contar, uma história sem conflito meio que nem é uma história. 







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